É manhã...
Um galo faz recital matutino.
Um cachorro late, dando boas-vindas ao dia.
E um jovem carpinteiro fala no pátio.
JESUS ESTÁ SENTADO, envolvido por uma roda de ouvintes. Alguns concordam, acenando com a cabeça, e abrem o coração em obediência. Eles aceitaram o mestre como seu mestre e estão aprendendo a aceitá-lo como seu Senhor.
Não sabemos qual era o assunto daquela manhã. Oração, talvez. Ou quem sabe bondade ou ansiedade. Fosse qual fosse o assunto, ele foi logo interrompido quando algumas pessoas entraram correndo no pátio.
Determinadas, elas irromperam de uma rua estreita e correram até Jesus. Os ouvintes tiveram dificuldades para sair do caminho delas. A multidão é composta por líderes religiosos, presbíteros e diáconos da época. Homens respeitados e importantes. Lutando para manter o equilíbrio em meio àquela onda de ira está uma mulher vestida com roupas impróprias.
Havia pouco, ela estivera na cama com um homem, que não o marido. Era assim que ela ganhava a vida? Talvez sim. Talvez não. Talvez o marido já não estivesse por ali, o coração dela poderia estar partido, o toque do estranho foi terno e, antes que pudesse perceber, acontecera. Não sabemos.
Mas o que de fato sabemos é que uma porta foi aberta abruptamente e ela foi arrancada de uma cama. Ela mal teve tempo de cobrir o corpo antes de ser arrastada para a rua por dois homens da idade de seu pai. Que pensamentos passaram por sua mente enquanto tentava se levantar?...
Com postura de santidade, a multidão avança na direção do mestre. Jogam a mulher em sua direção. Ela praticamente cai. “Mestre, esta mulher foi surpreendida em ato de adultério. Na Lei, Moisés nos ordena apedrejar tais mulheres. E o senhor, que diz?”
Atrevidos, ainda que por conta de coragem alheia, sorriem maliciosamente como se vissem o rato indo atrás do queijo.
A mulher busca as faces, ansiosa por encontrar um olhar compassivo. Não encontra nenhum. Em vez disso, vê apenas acusação. Olhares indiretos. Lábios apertados. Dentes rangendo. Olhares que condenam sem ver.
Corações frios empedernidos que condenam sem sentimento.
Olha para baixo e vê as pedras nas mãos da turba – pedras da retidão, cujo propósito é tirar-lhe a luxúria a pedradas. Os homens apertam as pedras com tanta força que as pontas de seus dedos ficam brancas. Eles apertam as pedras como se fossem a garganta daquele pregador que tano odeiam...
Fico pensando: será que ele se cansou de ver corações manchados e rejeitados?
Jesus viu um coração assim ao olhar para a mulher. Os pés dela estavam descalços e enlameados. Os braços cobriam-lhe o peito, e as mãos se apertavam logo abaixo do queixo. E seu coração, bem, seu coração estava em farrapos, rasgado tanto pela própria culpa como pela ira da turba.
Diante disso, com a ternura que somente um pai pode ter, ele resolve desatar os nós e consertar os buracos.
Começa distraindo a multidão. Ele desenha no chão. Todos olham para baixo. A mulher sente alívio assim que os olhares dos homens se afastam dela. Os acusadores são persistentes. “Diga-nos, mestre! O que o senhor quer que façamos com ela?”
Ele poderia ter perguntado por que eles não haviam trazido o homem. A lei também o incriminava. Ele poderia ter perguntado por que, de uma hora para outra, eles estavam tirando a poeira de um velho mandamento que estava na prateleira havia séculos. Mas não o fez.
Ele simplesmente ergueu a cabeça e fez um convite: “Acho que, se vocês nunca cometeram um erro, então têm o direito de apedrejar essa mulher”. Voltou o olhar para baixo e começou a desenhar na terra outra vez.
Alguém limpou a garganta, como se fosse dizer algo, mas ninguém disse nada. Pés se mexeram. Olhares baixaram. Então ouviu-se um baque seco... mais um... outro. As pedras começaram a cair no chão.
E eles começaram a ir embora. A começar pela barba mais grisalha e terminando na mais escura, todos se viraram e partiram. Vieram como um, mas saíram um aum.
Jesus pediu à mulher que olhasse para cima. “Ninguém a condenou?” Ele sorri conforme ela levanta a cabeça.
Talvez esperasse ouvir uma repreensão da arte dele. Talvez achasse que ele também se afastaria dela. Não tenho certeza, mas sei de uma coisa: ela recebeu algo que não esperava. Recebeu uma promessa e uma ordem.
A promessa: “Eu também não a condeno” (Jo 8:11).
A ordem: “Agora vá e abandone sua vida de pecado”.
MAX LUCADO

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